
Foto: MAGNUS NASCIMENTO
O Dia Mundial da Doação de Leite Humano, celebrado na última terça-feira (19), reforçou um alerta no Rio Grande do Norte: é preciso ampliar o número de doadoras para garantir a alimentação de recém-nascidos em situação de risco. Na Maternidade Escola Januário Cicco, o banco de leite enfrenta dificuldades para manter os estoques necessários à demanda diária, que varia entre sete e oito litros. Reconhecido pela Fundação Oswaldo Cruz como referência no processamento de leite humano, o banco é o único do estado autorizado a pasteurizar leite de instituições privadas e abastece a própria unidade e UTIs neonatais de hospitais como Unimed, Hapvida, Rio Grande, Varela Santiago e Ana Bezerra, em Santa Cruz.
A pediatra Geisa Menezes afirma que a conscientização ainda é o principal caminho para aumentar o número de doadoras. “Há uma preocupação que passa na cabeça das mães que tiveram um bebê, que não querem doar, porque elas pensam em guardar para o filho delas. Pois possuem um receio do leite acabar”, afirma. Ela esclarece que ocorre justamente o contrário. “Quanto mais sai leite do peito, mais ele é produzido. Então é quase um milagre da multiplicação. A saída e a sucção pelo bebê estimulam a produção.”
Muitas doadoras passaram pela unidade. “São mães que tiveram bebês aqui com toda a assistência e cuidado da equipe médica, precisaram da doação e, ao evoluírem na amamentação, tornam-se doadoras”, conta a enfermeira Verônica Feitosa.
A doação pode ser feita presencialmente ou por coleta domiciliar. Para doar, é necessário estar saudável e realizar um exame simples de sangue. O projeto Amigo do Peito, parceria entre a maternidade e o Corpo de Bombeiros do RN, realiza a coleta nas residências das doadoras e orienta sobre os cuidados no armazenamento. “O leite deve estar num recipiente de vidro vedado. Depois de fervido por 15 minutos, precisa ser congelado”, explicou a enfermeira. Além disso, é recomendado cobrir o rosto com máscara ou pano e prender os cabelos para evitar contaminação do leite.
Após a coleta, o material passa por triagem e é destinado conforme a necessidade dos bebês internados, principalmente prematuros. “O leite de mães de bebês prematuros, por exemplo, é mais valioso para outros prematuros que estão internados”, afirma Geisa Menezes. Segundo ela, a composição do leite varia conforme a fase de desenvolvimento da criança. “Se a criança tem três meses de vida, o leite tem características específicas diferentes daquele de apenas um mês.”
Além de nutritivo, o leite materno é essencial para fortalecer a imunidade dos recém-nascidos internados em UTIs neonatais. “O leite de fórmula não é bem digerido. O leite materno não é só nutrição, caloria e proteína. Ele possui fatores imunológicos que protegem o bebê, principalmente aqueles que estão internados nas UTIs”, explicou.
Em 2025, 1.216 mulheres realizaram doações que somaram 2.300 litros de leite no banco da maternidade, beneficiando 2.938 bebês. Já em 2026, entre janeiro e abril, foram 376 doadoras de 788 litros, atendendo 1.060.
A importância da iniciativa está nas histórias de quem já precisou de leite doado. Na sexta gestação, a agricultora Bianca Francoise, 32, enfrentou complicações devido a pressão alta. Sua filha nasceu prematura com 34 semanas e Bianca só pôde amamentá-la nove dias depois, quando houve melhora no quadro de saúde das duas. “A notícia de que iria precisar de doação de leite me pegou de surpresa. Pensei que ela só iria ficar uns dias internada, mas me explicaram que eu não poderia amamentar. Fiquei aliviada ao saber que já tinham o leite na maternidade”, relata.
Com isso, ela agora deseja ser uma doadora e ajudar outras mães com seus filhos. A experiência despertou em Bianca o desejo de se tornar doadora. “Eu já pensei em doar leite, sim, mas nunca fiz. Agora, passando pela experiência de precisar da doação, minha vontade aumentou”, disse.
A alta demanda ainda exige reforço nos estoques. Além da maternidade, em Natal, as doações também podem ser feitas nos bancos de leite humano do Hospital Central Coronel Pedro Germano e do Hospital Dr. José Pedro Bezerra. Já em Parnamirim, as doações são recebidas na Maternidade Divino Amor.
Tribuna do Norte